Num dia de saudade
A dor se avizinha da minha casa e baila nos espaços que sobram nos armários, meus olhos atravessam paredes, buscando roupas que abandonaram os cabides. Exausta, num exercício lento, relembro os perfumes que povoaram os cômodos da casa e os sapatos esquecidos perto de qualquer lugar. A cozinha reclama os vazios, as frutas sobram, na sua partida ficaram com preguiça de virar suco. Teimosa, resisto aos dias de sol sem qualquer proteção e, ensolarada, me redescubro, meu coração acomoda você e provamos juntos uma nova receita de amor, feito criança que povoa a vida, te abraço e dançamos ao som de uma canção, dessas que falam de saudade.
(Teresa Gouvea)
Os lugares do silêncio
No silêncio cabe tudo, nossos equívocos e acertos, as passagens da vida que a gente não lembrava, esquecidas como bilhetes de ônibus caídos num canto qualquer, cabem as dores que esperaram nosso tempo, escondidas entre as roupas que não usávamos e nunca foram doadas, cabe o cansaço do tempo que passou enquanto a gente esperava. No silêncio são ditas as palavras que não encontraram espaço, os abraços encolhidos, nossos olhos, despertos, dançam com as fotografias, acolhendo o amor acontecido. No silêncio cabem nossas mortes e renascimentos, nossos lugares de dor e paz, chegadas e despedidas, cabem as partes da nossa alma que pedem banho, luz e brisa.
Teresa Gouvea
Quando alguém não chega
Muitas vezes quem vinha foi embora, sem controle da estrada que seguia, queria chegar mas não chegou, virou passarinho, desses que encantam nosso coração e faz a gente se demorar nos finais de tarde.
Em nossas esperas cabe muita gente, quem quis vir, quem não conseguiu voltar, quem escolheu partir, gente lá de fora que mora aqui dentro, independente da ausência de passos, vozes e olhares, não chegará apesar de nunca ter partido, estão perdidos nas ruas do nosso coração...Somos feitos de esperas, longas e pequenas, sofridas e alegres. Aguardamos notícias que não acontecem porque erraram o caminho, se perderam em alguma esquina ou tomaram atalhos que culminaram em lugares que não são os nossos, perderam o rumo feito criança distraída com pipa.
(Teresa Gouvea)
Sobre Paciência e Memórias
(Teresa Gouvea)
Paciência com meus dias de dor,
meu mundo precisa ser redescoberto,
meus dias reinventados,
difícil abrir armários que guardam cheiros,
tirar as roupas, os sapatos, os perfumes,
todo esse mundo físico que me conta sobre quem partiu,
minhas mãos estão perdidas, meus pés vacilantes,
minha casa e meu coração silenciosos,
Paciência, com a minha voz que fala o nome dela,
repete tantas e tantas histórias,
resgata na memória os alívios,
encontra nas lembranças um jeito de acomodar esse amor,
me perdoem, não posso deixa-la partir definitivamente,
preciso de partes dela no que sou,
Paciência com meu amor reinventado...





Nenhum comentário:
Postar um comentário